terça-feira, 6 de março de 2012

Uma política de Estado para Aquicultura e Pesca - texto de 2010


Binho Zavaski*

     A atual estrutura do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) reafirma a importância estratégica e a visão de longo prazo que o atual governo possui para este setor. Em um país em que governos anteriores viraram as costas, literalmente, para a grande riqueza que vem de nossas águas, a criação da então Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca além de reafirmar o compromisso assumido pelo presidente Lula durante a campanha, marca o início da construção efetiva de políticas públicas para o setor.

     A análise da evolução orçamentária nos oito anos de governo, por exemplo, evidencia a importância dada pelo governo a todo o setor pesqueiro. O orçamento de R$ 11 milhões em 2003 evolui para R$ 905 milhões em 2010.

     De 2003 a 2010, o governo realizou três conferências nacionais e três estaduais em cada estado do Brasil. Estas conferências mobilizaram mais de 80 mil pessoas. Os programas e as ações em curso atualmente foram frutos das discussões e da construção coletiva durante este período, culminando em 2009 com a 3ª Conferencia Nacional de Aqüicultura e Pesca, com mais de 2 mil delegados e com o tema da Consolidação de Uma Política de Estado para a Pesca e Aqüicultura.

     Como resultado da participação popular e dos programas e ações desenvolvidas pela então Seap, em 2008 foi lançado o “Mais Pesca e Aquicultura”. O plano foi um marco institucional para as políticas voltadas ao setor. Depois de décadas, um plano nacional de desenvolvimento econômico e sustentável tanto para a pesca quanto para a aquicultura. As ações previstas são no sentido de reduzir a pobreza, combater a exclusão social e diminuir as desigualdades sociais e regionais.

     Para que o setor da pesca e aquicultura pudesse contar a continuidade dessas políticas, o governo federal empenhou-se para constituir uma legislação e um instrumento perene no Estado brasileiro.

     Em 2009, fruto de uma grande articulação política, foi sancionada a nova Lei da pesca e Aquicultura – aprovada depois de mais de 15 anos de discussão no Congresso Nacional; e de mais de 40 anos da lei anterior – que passa a considerar os pescadores e aquicultores como produtores rurais, com ampliação de direitos ao acesso a créditos rurais e a recursos mais baratos para financiar sua produção. A lei reconhece como trabalhadores da pesca aqueles que não trabalham diretamente com a extração, mas que estão no apoio a toda cadeia produtiva, como redeiros, carpinteinos, descascadeiras, filetadores e tantas outras profissões que estavam descobertas. Com a nova lei, passam a contar com o apoio previdenciário e legal. A Lei da Pesca conta também com um capítulo exclusivo sobre a aquicultura.

     Diante da necessidade de construir uma estrutura capaz de responder às demandas do setor de aquicultura e pesca, suas interfaces, nuances e diferenças, e com a necessidade de adaptar esta estrutura a um modelo de gestão ágil, eficaz e que fosse capaz de dar respostas mais rápidas, é que foi pensada a lei que cria o Ministério da Pesca e Aqüicultura. Depois de idas e vindas, da publicação de uma medida provisória e de sua revogação, finalmente, em junho de 2009, é aprovado por consenso no Congresso Nacional a criação do MPA.

     O novo Ministério é fruto de uma grande mobilização do governo e de setores da sociedade por meio do parlamento e de seus representantes, de longas e duras discussões, de debates de diversas posições ideológicas, bandeiras partidárias e mesmo de interesses difusos, que viam no processo a possibilidade de uma consolidação institucional e de uma política de Estado de longo prazo, sem as constantes mudanças, instabilidades e fragilidades institucionais de governos anteriores.

     Esta nova instituição teve seu modelo baseado em cinco pilares estruturais: planejamento, ordenamento, gestão, monitoramento e controle, agrupando em um único órgão competências que estavam espalhadas por diversos ministérios.

     O Ministério foi criado com quatro secretarias nacionais. Duas responsáveis pelo planejamento e ordenamento das atividades de aqüicultura e pesca, sendo uma da aquicultura – entendendo esta como atividade zootécnica, de produção agropecuária, ou seja, que depende do homem e da atividade antrópica para poder produzir; e outra de pesca – entendendo esta como uma atividade extrativista que depende do homem somente na sua extração do meio ambiente.

     Uma terceira, Secretaria de Monitoramento e Controle, capaz de, a partir do ordenamento das atividades, executar ações de regularização, acompanhamento, monitoramento das atividades e os exercícios profissionais da pesca e aquicultura. Por fim, a secretaria de fomento e infra-estrutura, dotada de programas e ações ligados às áreas finalísticas de fomento e desenvolvimento da pesca e da aquicultura, por meio de ações diretas como as obras de infra-estrutura da cadeia produtiva; e ações indiretas como as de apoio ao acesso do crédito, à assistência técnica e extensão pesqueira e aquícola, a pesquisa e a comercialização.

     O setor pesqueiro atualmente no Brasil conta com mais de 800 mil pescadores e pescadoras, milhares de aquicultores e maricultores; e mais de 3,5 milhões de trabalhadores e trabalhadoras envolvidos diretamente e indiretamente.

*Binho Zavaski, engenheiro agrônomo, é militante do PT-DF

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Publicado por admin em 8 de fevereiro de 2010 (13:41) Em Artigos, Especial Pesca & Aquicultura


















segunda-feira, 5 de março de 2012

Piscicultura passa por momento de expansão em diversos estados

 
Produção em MT cresceu 70% entre 2007 e 2009.
Estado só perde para RS, São Paulo, Santa Catarina e Ceará.
 
Do Globo Rural
 

A carne de peixe, a mais consumida no mundo, ainda tem pouco espaço nos supermercados brasileiros, quando comparada à carne de boi, de frango ou porco. Mas o consumo e a produção de pescado no país estão crescendo. Entre 2007 e 2009, a produção de peixe cresceu cerca de 60%. Mato Grosso, terra dos grãos e do boi, superou essa média nacional de crescimento e aumentou sua produção em 70% no período.


Em 2007, um brasileiro comia, em média, pouco mais de sete quilos de peixe por ano. Dois anos depois, passou para nove quilos, e ainda falta para chegar aos 12 quilos por habitante/ano, média recomendada pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).Um dos motivos para o Mato Grosso ter superado a média nacional de crescimento neste setor, é o forte investimento feito em Sorriso, no médio norte do estado.O empresário João Pedro da Silva foi pioneiro na produção de piscicultura em Mato Grosso e começou o cultivo em 1992. “Éramos eficientes como produtores, produzíamos bem soja e milho, mas o frete para levar esse produto para o sul do país era muito caro. Fomos buscar, então, formas de converter a proteína vegetal em animal e o peixe foi um dos veículos que nós fomos buscar para fazer isso”, explica o piscicultor.


Hoje, a Delicious Fish, empresa de João Pedro, também fatura com o bom momento do setor. Nos últimos cinco anos, sua produção anual saltou de mil para três mil toneladas de peixe. Eles fazem seus próprios alevinos, vendem parte deles, engordam a outra parte, e ainda processam toda a sua produção e, a de mais 30 parceiros, em um frigorífico próprio, localizado em Cuiabá.


A fazenda trabalha basicamente com três híbridos de espécies amazônicas: o pintado da Amazônia, cruza de cachara e jundiá; o tambacu, fruto de mãe tambaqui e de pai pacu; e o tambatinga, mistura de mãe tambaqui com pai pirapitinga, carro-chefe da empresa.Para aumentar ainda mais sua produção e atender um mercado que não para de crescer, João Pedro investe em várias frentes. Uma delas é o melhoramento genético das espécies amazônicas.


Há dois anos, ele abriu as portas da fazenda e se tornou parceiro do Aquabrasil, programa coordenado pela Embrapa, que tem como objetivo promover um salto tecnológico na aquicultura brasileira. A empresa de João se tornou sede dos experimentos envolvendo o cachara e o tambaqui.Enquanto os ganhos com melhoramento genético não chegam, o piscicultor busca resultados a curto prazo.


Seguindo sugestão de pesquisadores, como o zootecnista Darci Fornari, ele tem apostado em um sistema de cultivo super adensado, chamado "raceway". “Ele é caracterizado por alta renovação de água, de duas a quatro vezes o volume total por hora, e alta densidade de peixes. Hoje, nós estamos com quase 100 toneladas por hectare”, explica Darci.


Eles também estão de olho em outras espécies nativas com potencial de mercado. O pirarucu, considerado o gigante da Amazônia, é o próximo da lista. Dos peixes de escama de água doce, o pirarucu é o maior do mundo. Na natureza, pode chegar a três metros de comprimento e cerca de 200 quilos.O problema é que o pirarucu, durante muito tempo, foi super explorado. Para proteger a espécie, a pesca foi proibida. Comer pirarucu hoje só é possível se ele vier de cativeiro ou áreas de manejo, que não são muitas. Este cenário é uma oportunidade de negócio que João Pedro não quer deixar escapar. “O pirarucu tem a vantagem do grande ganho de peso e é um peixe que descama igual ao bacalhau.


Nós pretendemos vendê-lo como o bacalhau brasileiro”, explica.As matrizes e os reprodutores já estão bem adaptados ao cativeiro: têm bom ganho de peso. O desafio agora é fazer com que eles se reproduzam nos tanques. “O pirarucu é um dos poucos animais que o homem não pode pegar um macho e uma fêmea e fazer reproduzir, ele tem que namorar, se afinar e criar o casal espontâneo”, explica o produtor.Investimentos e produção acelerada


Muitas empresas estão investindo alto neste mercado para colocar nas prateleiras dos supermercados uma ampla linha à base de peixe. A última empresa a se instalar na região chegou com investimentos de R$ 80 milhões e, em apenas dois anos, já processa cerca de 20 toneladas de peixe por dia.


A Nativ já é considerada uma das empresas mais modernas do país no seu segmento.


Pedro Furlan, diretor-presidente e fundador da empresa, pretende implantar o mesmo modelo de produção do frango e do porco, no peixe. “Com profissionalismo, com gestão, controle de qualidade, rastreabilidade em todo o processo produtivo, com conceito de inovação, de praticidade, diferente do que o mercado de pescado no Brasil normalmente trabalha”, afirma.


Para abrigar seus tantos planos, Pedro não escolheu Sorriso por acaso. Além do município ser grande produtor de grãos, matéria-prima para ração dos peixes, também tem estradas e todo suporte logístico necessário para um grande frigorífico.


O perfil empreendedor do produtor rural da região também agrada. Outro ponto importante é que Sorriso fica na bacia Amazônica, onde se pode criar facilmente espécies da Amazônia com grande potencial de mercado, as queridinhas da empresa.Surubim e tambaqui são criados por produtores parceiros. Em seus 80 hectares de lâmina d’água, a empresa engorda tilápia, peixe exótico já muito adaptado ao Brasil, e principalmente pintado da Amazônia (com produção própria de alevinos).


O pintado da Amazônia é fruto do cruzamento da mãe cachara com o pai jundiá. O resultado é um peixe de couro pintado, cabeça pequena, carne branca e saborosa. Da mãe, o pintado herda a mansidão, e do pai, a característica de não gostar de comer outros peixes, facilitando a criação em cativeiro.Matrizes e reprodutores são capturados na natureza, com autorização dos órgãos ambientais. As fêmeas em período final de maturação recebem doses de hormônio que estimulam a liberação dos ovos.


Para fazer a fecundação, técnicos do laboratório de reprodução coletam o sêmen do macho.Na fêmea, a produção de ovos é abundante e as doses de sêmen são delicadamente misturadas aos ovos. Depois, eles adicionam água para ativar os espermatozóides, que vão fecundar os ovos e dar origem às larvas de pintado. Em menos de 24 horas, os ovos eclodem, dando origem às larvas.Quando as larvas iniciam seu processo de metamorfose e ganham as cores e as características do pintado, são transferidas para tanques azuis, e passam a ser chamadas de alevinos. Já comendo ração, eles seguem para tanques-berçários, onde ficam, pelo menos, mais um mês.Em plena safra, eles conseguem produzir até 100 mil alevinos por semana. “Os peixes chegam com peso médio de 250g e são engordados até 1,5kg. Dura sete meses esse tempo de engorda”, explica Lisandro Bauer, engenheiro de pesca.


A sala de abate foi montada para atender às normas de bem-estar animal. Os peixes perdem todos os sentidos antes de morrer e, assim, não sentem dor. “Nós baixamos a temperatura com água e gelo próximo a 0°C para que o animal seja insensibilizado”, afirma Jeferson Krugina, gerente de processo.Ao todo, a empresa emprega 350 pessoas.


Parte dos cortes limpos, que saem das mãos destes funcionários, é vendida apenas congelada: lombo e costela de tambaqui, filé e pedaços de tilápia e pintado são alguns dos produtos. A empresa também tem uma linha de processados e empanados, já nas gôndolas das principais redes de supermercados do país.


Hoje, a empresa ainda trabalha abaixo da sua capacidade, por isso, seu foco está voltado para a implantação de um modelo sólido de parceria com os piscicultores da região, que funcionaria nos moldes do que acontece hoje com o frango e o porco. “A gente vai trabalhar na integração, fornecendo todos os insumos, medicamentos, alevinos e ração, e ainda garantir a compra no final desse processo de integração”, explica Fernando Frozza, supervisor de parcerias.
 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Tucanos e imprensa chamam concessão de privatização e parte da esquerda cai na esparrela!

     Aeroporto de Guarulhos que, ao contrário do que diz a imprensa, não foi privatizado!

    O governo Dilma realizou licitação para concessão de três aeroportos: Guarulhos, Viracopos e Brasília

     A imprensa vem tratando esse assunto como se fosse uma ação de privatização e não fala noutra coisa. É privatização pra lá, privatização pra cá…

     Os tucanos de alta plumagem não cansaram de falar, ontem, que finalmente o PT tinha se dobrado às privatizações, que antes tanto criticava.

     O motivo é óbvio: confundir o(a) leitor(a) e o(a) eleitor(a) e colocar todos no mesmo saco e com isso esconder o que fizeram durante os governos tucanos, em São Paulo e no Brasil.

     O que o PT sempre combateu foi o processo de privatização realizado pelo Fernando Henrique, Serra e outros, nas áreas de telecomunicações (telefonia) e minas e energia, especialmente.

     Privatização é “vender” ou “dar” (como foi o caso da Vale) o patrimônio público para empresas privadas. De forma definitiva! Na privatização, o patrimônio nunca mais retorna ao poder público e a política é ditada pelos novos proprietários e não pelo governo, ainda que haja algum nível de regulação pelas agências.

     Se o Serra tivesse ganhado as eleições em 2002, teriam sido privatizados o Banco do Brasil e a Petrobras, entre outros.

     Então, o que o PT estigmatizou nas eleições de 2006 e 2010, botando o Alckmin e o Serra nas cordas, foi isso aí, que está bem retratado no livro de Amaury Júnior: “A Privataria Tucana”.

     Concessão não tem nada a ver com privatização, pois é uma forma de contrato da administração pública, com empresas privadas para realização de obras e serviços.

     O governo pode contratar uma empresa de construção para, num período de cinco anos, realizar obras de ampliação no aeroporto de Guarulhos. A forma de pagamento será direta, com recursos orçamentários, mediante medições de execução.

     Mas há outra forma que é o governo contratar – por um período de vinte, trinta anos – empresa para realizar serviços e obras necessárias no aeroporto de Guarulhos, como definidas no Edital de Licitação.

     Neste caso, a forma de remuneração não sai do orçamento público e sim dos usuários que farão uso daqueles serviços.

     Ao final do período de contrato, todo o patrimônio – agora ampliado e modernizado – retorna à União, Estado ou município e a concessionária não recebe nada por isso.

     Em síntese, ela recebe o patrimônio atual, faz obras de ampliação e de modernização, cuida da manutenção e da operação (aeroporto, porto, ferrovia ou rodovia), apenas com os recursos auferidos dos serviços prestados aos usuários.

     Ela pode pegar empréstimo no BNDES, a juros menores que os de mercado, mas terá que pagá-los.

     É simples assim, mas há uma parte da esquerda que cai na esparrela da imprensa e dos tucanos e compra o discurso deles, de que os contratos de concessão dos governos Lula e Dilma são a mesma coisa repugnante que a venda ou doação de patrimônio público, como ocorre nas privatizações.

     Com essa atitude ingênua, essa parte da esquerda fragiliza o trabalho, do PT e de outros partidos de esquerda, de distinguir uma coisa da outra e reforçar o ataque às privatizações, tais como são feitas pelo PSDB em alguns estados, como São Paulo, e foram feitas no tenebroso período FHC.

     Sobre isso, sugiro a leitura de post do Blog do Zé Dirceu “Aeroportos: tucanos se perdem e deliram em interpretações“

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Cumprir a lei, mas não desta forma - Resposta da Senadora Marta Suplicy ao Senador Aloysio Nunes - Sobre o Pinheirinho - SP


AO REPERCUTIR A OPERAÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE NO BAIRRO PINHEIRINHO, EM ARTIGO NA FOLHA, O SENADOR ALOYSIO NUNES TENTA DEFENDER O INDEFENSÁVEL - 02 de Fevereiro de 2012 às 15:42

Marta Suplicy

Em artigo na Folha de São Paulo repercutindo a operação de reintegração de posse no bairro Pinheirinho, em São José dos Campos/SP, o Senador Aloysio Nunes tenta defender o indefensável, opondo “mentiras” e “verdades” numa tentativa de transformar fatos sérios e amplamente divulgados pela imprensa em “ocorrências” decorrentes de uma decisão judicial, como se o cumprimento das leis pudesse justificar a violência de uma ação mal planejada.

Fundamentarei minhas ponderações aos argumentos do Senador com fatos, pois uma operação que envolve o desalojamento mais de 1.600 famílias e chama a atenção do mundo pela truculência policial não pode ser tratada como mera disputa eleitoral.

Aloysio Nunes: Desde 2004, a União nunca se manifestou no processo como parte nem solicitou o deslocamento dos autos para a Justiça Federal. Em 13 de janeiro de 2012, oito anos após a invasão, quando a reintegração já era certa, o Ministério das Cidades -logo o das Cidades, do combalido ministro Mário Negromonte - entregou às pressas à Justiça um "protocolo de intenções". Sem assinatura, sem dinheiro, sem cronograma para reassentar famílias nem indicação de áreas, o documento, segundo a Justiça, "não dizia nada", era uma "intenção política vaga”.

Marta Suplicy: Desde 2005, o Ministério das Cidades reitera seu interesse em colaborar na solução pacífica para o conflito e se prontificou em priorizar o município de São José dos Campos em programas federais como o de urbanização de assentamentos precários e de habitação para famílias de baixa renda. Porém, cabe à prefeitura dispor sobre a gestão do solo urbano, uma competência constitucional do município, bem como o cadastramento das propostas e a elaboração dos projetos técnicos, o que não aconteceu até agora.

Aloysio Nunes: Não houve, felizmente, nenhuma morte, assim como nas 164 reintegrações feitas pela Polícia Militar em 2011. O massacre não existiu, mas o governo do PT divulgou industrialmente a calúnia. A mentira ganhou corpo quando a "Agência Brasil", empresa federal, paga com dinheiro do contribuinte, publicou entrevista de um advogado dos invasores dando a entender que seria o porta-voz da OAB, entidade que o desautorizou. A mentira ganhou o mundo. Presente no local, sem explicar se na condição de ativista ou de servidor público, Paulo Maldos, militante petista instalado numa sinecura chamada Secretaria Nacional de Articulação Social, disse ter sido atingido por uma bala de borracha. Não fez BO nem autorizou exame de corpo de delito. Hoje, posa como ex-combatente de uma guerra que não aconteceu.

Marta Suplicy: Em seu artigo, o Senador se vale exclusivamente do critério “número de mortes” para classificar a ação policial e contrapor as denúncias de violência na operação de reintegração de posse ocorrida em Pinheirinho. Os fatos divulgados publicamente desde o início da operação são suficientes para caracterizar a ocorrência de violação dos direitos humanos no tratamento dispensado aos despejados e o uso excessivo de violência. Relatório preliminar elaborado por Brigadas Populares, Justiça Global, Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência apontou uso indiscriminado de bombas de gás, spray de pimenta e projéteis de borracha. Algumas imagens mostraram guardas municipais empunhando armas com munição letal. Também houve relatos de agressões, ameaças, espancamentos, obstrução do acesso das famílias despejadas aos seus pertences, destruição das casas com pertences e móveis, abandono do terreno ao saque indiscriminado, obstrução ao trabalho da imprensa e de organizações e instituições defensoras dos direitos humanos. Na reunião da bancada do Partido dos Trabalhadores, ocorrida na última quarta-feira (01/02), o Senador Eduardo Suplicy, que esteve no Pinheirinho, relatou várias destas situações de agressão inaceitáveis.

Aloysio Nunes: A operação foi planejada por mais de quatro meses, a pedido da juíza. Participaram PM, membros do Conselho Tutelar, do Ministério Público, da OAB e dos bombeiros. O objetivo era garantir a integridade das pessoas e minimizar os danos. A prefeitura mobilizou mais de 600 servidores e montou oito abrigos. Os abrigos foram diariamente sabotados pelos autodenominados líderes dos sem-teto, que cortavam a água e depredavam os banheiros.

Marta Suplicy: O Senador fala que a operação foi planejada durante quatro meses, mas até agora não está claro o papel desempenhado pelos membros do Conselho Tutelar, do Ministério Público, da OAB e dos bombeiros na ação coordenada pela Polícia Militar no bairro Pinheirinho. Apesar da participação destes órgãos na operação, há relatos de crianças que se perderam de seus pais durante a operação, de recém-nascidos que foram levados por ambulâncias sem a companhia dos responsáveis e da obstrução do acesso de ambulâncias para resgate dos feridos. Por outro lado, a mobilização de um efetivo de mais de 600 servidores para organizar o processo de desalojamento, triagem e alojamento nos abrigos apenas ressaltou a falta de planejamento da operação. Apesar do número significativo de servidores, o procedimento de retirada das pessoas, catalogação e separação dos pertences e a devolução destes pertences às famílias não ocorreu a contento e a operação acabou levando à perda da maioria dos bens removidos. Além da violência, as famílias desalojadas sofrem com a não proteção de seus bens pessoais. Quanto aos abrigos, relatos dos moradores despejados apontam que em todos os disponibilizados pela prefeitura, as condições sanitárias são precárias, o espaço insuficiente, o atendimento médico aos necessitados inexiste ou depende de trabalho de voluntários. É muito fácil alegar que houve “sabotagem” de abrigos, uma postura idêntica a do ex-diretor regional da Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU) em Ribeirão Preto, Milton de Souza Leite, ao insinuar que as fissuras e vazamentos nas casas entregues pelo governo do estado em dezembro eram consequência do mau uso dos moradores e do fato de eles virem de favelas. Mas a precariedade dos abrigos também foi constatada pela Defensoria Púbica de São Paulo em São José dos Campos, que ajuizou uma ação civil pública pedindo à Justiça que determine à prefeitura e ao Estado o acolhimento emergencial da população removida do bairro do Pinheirinho em locais adequados. Os defensores públicos que acompanharam a operação relataram “a falta de estrutura dos equipamentos, com pessoas abrigadas de maneira precária em quadras poliesportivas próximas a viveiros de pombos e fezes de animais”. Segundo o defensor público Jairo Salvador, em declaração ao jornal Folha de São Paulo do dia 24 de janeiro, as pessoas estão “amontoadas” em abrigos e igrejas da região, sem acesso a condições de higiene e comida. Cita a mesma reportagem que a Defensoria identificou “800 pessoas em uma escola que dispõe de apenas um banheiro com duas privadas entupidas e dois chuveiros. Além disso, em grande parte do tempo o imóvel fica sem água”. Além disso, o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), após realizar diligência in loco no bairro Pinheirinho, constatou diversas violações aos Direitos Humanos da população envolvida na desocupação, dentre elas, a ausência de condições de higiene, saúde e alimentação adequada nos abrigos; a superlotação nos alojamentos; negligência psicológica, falha na comunicação entre agentes do Poder Executivo local, entre si, e com os desabrigados; entre outras violações.

Aloysio Nunes: O governo do Estado anunciou mais 5.000 moradias populares em São José dos Campos, as quais se somarão às 2.500 construídas nos últimos anos. Também foi oferecido aluguel social de R$ 500 até que os lares definitivos fiquem prontos. Nenhuma família será deixada para trás. Entre verdades e mentiras, é certa uma profunda diferença entre PT e PSDB no enfrentamento do drama da moradia para famílias de baixa renda. O Minha Casa, Minha Vida só vai sair do papel em São Paulo graças ao complemento de R$ 20 mil por unidade oferecido pelo governador Geraldo Alckmin às famílias de baixa renda. Sem a ajuda de São Paulo, o governo federal levaria 22 anos para atingir sua meta.

Marta Suplicy: No último dia 12 de janeiro, a Presidenta Dilma Rousseff participou da cerimônia de assinatura do termo de compromisso com o governo de São Paulo para o Programa Minha, Casa Minha Vida, que contará com investimentos de R$ 6,15 bilhões da União e de R$ 1,9 bilhão do Governo do Estado. Foi ótima esta parceria, pois ela permite ao Estado de São Paulo reduzir o grande déficit habitacional. A ação do Governo Dilma possibilitará a construção de 100 mil unidades habitacionais e ampliará o acesso das famílias de baixa renda ao programa, numa demonstração inequívoca do caráter republicano da relação do governo federal com o governo paulista. E, o contrário da crítica feita pelo Senador, também é verdadeiro. Afinal, o que o Governo do Estado faria com R$ 20 mil por unidade habitacional?

Aloysio Nunes: O PT flerta com grupelhos que apostam em invasões e que torcem para que a violência leve os miseráveis da terra ao paraíso. Nós, do PSDB, construímos casas. Respeitar sentença judicial é preservar o Estado de Direito. É vital que esse princípio seja defendido pelas mais altas autoridades. Inclusive pela presidente, que cometeu a ligeireza de, sem maior exame, classificar de barbárie o cumprimento de uma ordem judicial cercado de todas as cautelas que a dramaticidade da situação exigia.

Marta Suplicy: Não se trata aqui de desrespeito à sentença judicial, mas de combater as posturas arbitrárias, a truculência policial e a falta de planejamento da operação de desalojamento e reintegração de posse. Os fatos amplamente divulgados não condizem com a “cautela” apregoada pelo Senador.

Constrange a todos o mantra do Governo Alckmin: “temos que cumprir a lei”. E a detenta algemada à cama de um leito de hospital dando a luz? Cumprindo a lei? Há acordo quanto ao cumprimento da justiça, mas não sobre a forma de fazê-lo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Resolução Política do 1º Congresso Nacional da Esquerda Popular Socialista, tendência interna do Partido dos Trabalhadores


Escola Nacional Florestan Fernandes, Guararema/São Paulo

Dezembro de 2011

“Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.”
Slavoj Zizek – (No “Occupy Wall Street” em NY)

Princípios teórico-ideológicos

Introdução

A Esquerda Popular Socialista (EPS), tendência interna do PT, afirma seu caráter socialista, referenciado filosoficamente no marxismo. A nova tendência reitera seu compromisso de disputar os rumos do PT, defender seu legado, que já adquiriu estatuto histórico, e realizar a crítica franca, leal e solidária aos limites que a realpolitik vem impondo ao Partido.

O PT como dispositivo orgânico do mundo do trabalho nasce fazendo demarcações importantes com as mazelas do capital, seja em seus impactos mundiais, seja na formação social brasileira. No entanto, tais demarcações tiveram alcance restrito, em função das condições gerais da resistência anticapitalista no mundo e pelo processo de desarticulação da própria esquerda brasileira. Principalmente, por seus atrasos e déficits políticos e teóricos.

     Em que pese ter se cristalizado no topo das instâncias petistas (e na inter-relação das tendências nacionais ou regionais mais significativas) uma paralisia no processo de elaboração teórica inovadora, percebe-se um mal estar político transversal nas fileiras partidárias, percorrendo as bases de todas as tendências. Um incômodo que se reflete, primeiramente, na perda de vida orgânica do Partido e se desdobra, até mesmo, para um ativismo “despartidarizado” em frentes sociais menos moderadas e menos “amarradas” burocraticamente.

É preciso resgatar esse potencial de elaboração e a capacidade dirigente do Partido em todas as frentes estratégicas das lutas de classes. É nosso propósito contribuir solidamente para isso.

Três são as premissas que pretendemos desenvolver, tirar consequências politico-organizativas e fixar como desafios à retomada da trajetória crítica e emancipatória do PT:

1. Reiterar a crítica e a negação do capitalismo e, portanto, o rechaço a qualquer ilusão de que o mesmo possa ser “melhorado” pela via de ações corretivas ou controles institucionais. Se o capitalismo não cai de maduro, também não é passível de ser reciclado sob algum tipo de mágica social liberal.

2. Reafirmar o Socialismo, concebendo-o como construto político e social que deve renascer, inclusive, sobre os escombros das derrotas das experiências revolucionárias do século XX. Devemos ter a determinação de fazer a críticas a esses eventos, exatamente para defender a necessidade da revolução social. Eventos estes que estacionaram e, posteriormente, regrediram, em termos de socialização dos meios de produção e radical democratização da sociedade; uma democratização substantiva, fundada em conselhos operários e populares e na distribuição equilibrada da riqueza social.

3. Faz-se aqui, também, a crítica ao rebaixamento do projeto comunista. Seja na versão de burocratas, apegados às experiências revolucionárias derrotadas no século XX; seja pelos liberais e socialdemocratas que tentam impor projetos de “humanização”, democratização e correção do capital, como alternativa pseudo socialista ao capitalismo.

Estratégia

4. Disputar os rumos do PT, para que o mesmo tenha papel de destaque na fundação do socialismo no terreno nacional, consideradas todas as particularidades da formação econômica e social brasileira;

5. Contribuir para que o PT influencie a reciclagem e o reforço do movimento internacional de luta pelo socialismo, para colocar em xeque o conjunto da dominação do capital.

Tática geral

6. Expor as contradições entre capital e trabalho, em atividade permanente de agitação e propaganda, orientada para a denúncia do capital como relação social dominante e que, ao perdurar, coloca em risco a própria existência da humanidade.

7. Reafirmar a centralidade categorial do trabalho na sociabilidade humana (em contraposição à pretensa dissolução dessa categoria, como identificadora das classes sociais e das necessidades imediatas e históricas da ampla maioria da humanidade).

8. Praticar o internacionalismo socialista, principalmente nas relações diretas entre movimentos, partidos e organizações de resistência e de contra ofensiva ao capital.

9. Propor e praticar a geração de espaços de discussão e deliberação de plataformas de cunho político, econômico e social avançado, para além da postura reivindicatória setorial e corporativa; ou seja, incentivar a gestação de fóruns de contra poder popular (ou contra hegemônicos).

10. Valorizar tais lutas setoriais e corporativas, em seu duplo significado: como meios necessários para melhorar as condições imediatas de vida das massas e caminho à aquisição de consciência de classe, para adesão consciente ao projeto estratégico.

11. Tais são as ações sociais coletivas, com caráter sócio-político e cultural, às vezes encoberto, que permitem a existência de distintas formas de organização popular e expressão de suas demandas. Subjetividades políticas e históricas se organizam coletivamente em torno de interesses comuns, geralmente em busca de mudanças imediatas, vislumbrando alcance social mais amplo. Por se limitarem estrategicamente, podem trazer no bojo de suas reivindicações pautas moderadas e até mesmo conservadoras. No entanto, para além da união de sujeitos potencialmente históricos em torno de ações coletivas, os movimentos populares estão inseridos em realidades sociais concretas, nas quais podem se desenvolver, reconhecendo o conflito básico que contrapõe capital e trabalho. Daí sua importância estratégica. Daí a determinação de se evitar que os mesmos sejam instrumentalizados eleitoralmente e mantidos apenas para a sustentação política e institucional.

12. Baseando-nos na caracterização da crise estrutural do capitalismo e na análise da formação social e econômica brasileira, fixar as contradições fundamentais em ambas as esferas e definir prioridades a serem alcançadas no sentido da desestabilização da dominação capitalista.

Conjuntura Internacional

11. A marca mais evidente do quadro conjuntural contemporâneo é a crise política, econômica e cultural do sistema dominante, em crescente perda de legitimidade social. Isso quer dizer que não vivemos apenas uma crise de expansão endógena do sistema. Pelo contrário, o capitalismo, para se sustentar, tem de se alimentar de suas próprias entranhas; numa manifestação ainda mais perversa daquilo que Schumpeter definiu como “destruição criativa”. Ressalte-se: de fato, pouca criação, para muita destruição.

12. Em outros períodos de crescimento sistêmico, o capital ainda tinha virtudes com as quais inoculava expectativas positivas em amplas parcelas da humanidade. Hoje, depois da arrogante declaração de um “fim da história e do último homem” (Fukuyama), o capital, como relação social dominante, já nem sequer se preocupa em dourar a pílula: o darwinismo social é erigido a valor a ser cultivado e praticado nas relações econômicas e políticas internas as nações (entre suas classes e etnias), entre as próprias nações e blocos regionais.

13. Os conflitos entre os diversos sujeitos históricos (nações, continentes, blocos regionais, alianças empresariais, classes e frações de classes) adquirem um estatuto distinto neste início de século. Diferentemente das alegações de defesa da soberania nacional; da democracia (como um suposto valor universal a ser defendido pelas armas); ou mesmo das chamadas intervenções “humanitárias” que escondiam pilhagens em nações invadidas, hoje, os interesses explícitos das diversas frações capitalistas e de suas “cadeias produtivas” nem mesmo disfarçam seus objetivos e métodos.

14. Mercado comprador, matérias primas, fontes energéticas, infraestrutura (armazenamento, logística, conhecimento – C & T – etc.) aparecem como os motivos cada vez mais explícitos das ações militares recentes. E da ausência de qualquer escrúpulo nas violações do próprio direito internacional burguês. Os exemplos da guerra imperialista contra o Iraque, da intervenção militar no Afeganistão e do golpe político e militar na Líbia revelam a inexistência de limites fundados em tratados internacionais e tradições jurídicas. Tudo que anteriormente existia como ponto de equilíbrio nas relações internacionais, nesse sentido, vira letra morta.

15. Ou seja, tudo que antes era sólido, em termos das regras de convivência entre nações, vem se dissolvendo no ar, como as normas que definiam o direito ao trabalho e à própria organização do mundo do trabalho; as garantias sociais (sobretudo aos direitos previdenciários, de saúde e educação); a produção e reprodução de subjetividades (notadamente no terreno da cultura e das tradições internas aos povos e etnias); fronteiras geográficas; direitos humanos etc., tudo isso é desconsiderado sem o menor constrangimento.

16. A gravidade da crise internacional do sistema capitalista é um consenso. Já as explicações sobre sua natureza, não. O que importa registrar, enquanto se investe na definição mais qualificada dessa crise, é que a mesma se compõe de determinações diversas: a) o declínio da pax keynesiana, que sobreveio ao pós-guerra e, a partir da década de 1960, agrava a queda das taxas de lucros nos setores de ponta da economia mundial; b) o fracasso das medidas elaboradas na década de 1970 e implementadas a partir da década seguinte, nos níveis da desnacionalização das economias, privatização de ativos estatais, retirada de direitos trabalhistas e sociais, flexibilização das fronteiras comerciais (de forma desigual e “pouco” combinada), desconstrução das máquinas estatais (em termos políticos e administrativos); tudo pressionado por um processo de radical de financeirização da economia, de expansão e contração abruptas de créditos públicos e privados, gerando sucessivas quebras e seus efeitos dominós.

17. A autonomização dos ativos financeiros, impulsionados por outros fundos especulativos (em especial, os chamados derivativos) frente à economia real e material, ganha uma importância estratégica na precária estabilidade do sistema. A securitização de dívidas e de outras operações de risco no mercado financeiro, antes uma medida defensiva, adquire vida própria e passa a ser, ela mesma, outro “negócio”. Tonificam-se os chamados hedges, criaturas previamente destinadas à distribuição e compartilhamento de riscos de fundos de investimentos e operações diversas (de compras ou vendas de “posições” futuras de ações ou commodities, estas pressionadas pela instabilidade das taxas de câmbio ou de medidas protetivas nas taxas de juros soberanas).

18. Adicionem-se a isso, as tensões e dificuldades para pagamentos, nos prazos estipulados, de dívidas contraídas junto a bancos privados, por países da zona do Euro. Até agora quase uma dezena de países tiveram seus governos dissolvidos, em face da premente necessidade de se acalmar a agiotagem bancária e financeira internacional. Houve também as guerras de pilhagem como as do Iraque e da Líbia. O gigantesco déficit orçamentário dos Estados Unidos. A proeminência da China, cuja economia não reconhece regras e limites internacionais, e que se dá à base de uma brutal ausência de regulação trabalhista em seu parque industrial e acintosa manipulação de sua moeda, frente ao dólar, instabilizando ainda mais o precário equilíbrio na economia do mundo.

19. Com desfaçatez jamais vista, os governos dos países mais ricos e as agências multilaterais defendem e praticam medidas de proteção a bancos e fundos de investimentos que, por sua vez, usaram e abusaram das “bolhas de ativos”, com lastro precário (como nos ativos mobiliários dos EUA) ou mesmo sem lastro material algum (alguns tipos de derivativos e hedges). O chamado calote, apelido usado na acusação àqueles que defendem a auditoria de operações mundiais de crédito, suspeitas desde a década de 1970, é praticado sem qualquer mediação, exatamente por quem sempre o criticara.

20. As contradições nos níveis de governo também são significativas. Mesmo que não representem uma ruptura com o capital, a forma de lidar com as crises financeiras recentes e com as demandas dos seus estratos estratégicos mostra diferenças que não podem ser desprezadas. Notadamente no Brasil, a partir do governo Lula, surgem maneiras distintas de se lidar com as crises internacionais: ao invés do receituário ortodoxo (demissões no serviço público, arrocho salarial, cortes em gastos sociais, no crédito, recessão) o Brasil apostou no caminho inverso. Segundo o tucano José Serra, no auge da crise de 2008/09, o que o Lula estava fazendo “ia contra tudo que ensinava a economia” e certamente “daria errado”.

21. Tal polarização, que não expressa – de fato – agudos e radicais conflitos antagônicos de classe, é politicamente importante. O destaque ganho internacionalmente pelo governo Lula contribui para enfraquecer as politicas hegemônicas neoliberais e deve ser valorizado. Afinal, a receita expressa na frase “não há alternativas” se viu questionada nos seus fundamentos. Evidente que as medidas chamadas de “anticíclicas”, adotadas Lula e, parcialmente, por outros governantes, tem seus limites. Mas, representaram – ao seu tempo – e ainda representam, um contraponto importante às saídas ditadas por consultorias a serviço de instituições bancárias privadas pelo mundo afora.

22. Tais medidas ortodoxas, adotadas para se debelar as crises mundiais, regionais e intestinas aos países aprofundam as contradições sociais. Direitos trabalhistas e previdenciários são precarizados, os empregos formais decrescem, aprofunda-se a crise ambiental, agudizam-se as manifestações de intolerância étnica e religiosa etc.

23. No rastro disso aumentam também os atos de resistência populares pelo mundo afora. As gigantescas manifestações populares na Tunísia, no Egito, na Líbia, na Síria, Iêmen, junto às manifestações esmagadas, como na Arábia Saudita e Irã, foram monitoradas pelos países imperialistas, para evitar que a “primavera árabe” se transformasse em algo sistêmico, ameaçando os interesses do capital.

24. Surgem as manifestações denominadas “Ocupem Wall Street”, claramente críticas à financeirização da economia. Movimento difuso, sem uma clara hegemonia anticapitalista, ainda que sua racionalidade aponte para essa perspectiva, tais iniciativas se espalharam pelo mundo como num rastilho de pólvora. E chega a ser patética as maneiras pelas quais a imprensa burguesa busca retratar os citados movimentos. Para a direita, essas iniciativas seriam apenas uma crítica à corrupção e ao descontrole dos ditos mercados. Quando na realidade representam não apenas uma crítica adjetiva, mas – fundamentalmente – substantiva. Ou seja, não são os “defeitos” da financeirização que recebem a crítica, mas a própria substância do fenômeno que é colocada em xeque.

25. Porém, reitera-se, pela enésima vez: o capital não cai, exclusivamente, por suas contradições internas. A evidente agonia do capital não resulta automaticamente em sua superação. Antes de ser “dinheiro”, maquinaria, commodities, títulos, tecnologia, conhecimento etc., o capital é uma relação social na qual o controle do tempo da vida alheia é a condição básica de sua reprodução. E, a cada obstáculo estrutural a esse processo de reprodução, recai sobre o “tempo” de fruição da vida da maioria da população mundial a saída conservadora: a apropriação, sob novas formas, dos atributos físicos e intelectuais de bilhões de pessoais; encurtando seu tempo livre, através de jornadas cada vez mais intensivas e extensivas de um trabalho, este por definição e natureza, alienado. Ou se constituem sujeitos políticos e orgânicos que enfrentem esse quadro, ou se prolongará, em condições cada vez mais perigosas, as contradições desse sistema.

26. É forçoso reconhecer que a esquerda socialista ainda está muito aquém das possibilidades colocadas pela extrema agudização da crise do capital. Faltam à esquerda revolucionária dois degraus indispensáveis para que tais possibilidades se realizem: um acúmulo teórico que balanceie a trágica experiência das tentativas socialistas do século XX, preparando o terreno para a elaboração da ausente teoria da transição anticapitalista; e ampliar sua capilaridade social, com o objetivo de reestabelecer laços que existiram no passado, seja com as bases proletarizadas e semi-proletarizadas da sociedade, seja com setores sensíveis da pequena burguesia, da intelectualidade progressista, de agentes culturais, da juventude, das mulheres, com as etnias discriminadas e com todos os demais setores susceptíveis de integrar um projeto emancipador.



Conjuntura Nacional

27. O momento político no Brasil é marcado por uma situação sui generis: o governo central é presidido uma petista, ex-combatente nos confrontos com a Ditadura Militar, e que sucedeu, na presidência da República, a maior liderança operária que esse país já teve. No entanto, no campo institucional e parlamentar, o presidente Lula e a presidenta Dilma fixaram-se nos limites de um governo de coalizão.

28. O Partido dos Trabalhadores, portanto, é lançado à condição de base sustentadora de um governo complexo, pluriclassista e contraditório. Inequívocos avanços se misturam à situações estagnadas e, até mesmo, constrangedoras em relação ao ideário democrático e popular.

29. Os avanços se situam no terreno da distribuição de renda, que melhora sensivelmente a situação dos pobres do país. Na dimensão nutricional e da segurança alimentar. Na recuperação das estruturas estatais dizimadas pelo governo FHC (na saúde, na educação, na infraestrutura, na ciência e tecnologia, no crédito público, no planejamento etc). Na ampliação dos espaços democráticos, via conferências nacionais setoriais, no fortalecimento dos conselhos e outras instâncias de representação social, na abertura da estrutura de governo à representação dos temas das mulheres, etnias, juventude, pessoas deficientes, idosos, população LGBT, alguns destes se expressam em estruturas com status de ministério etc. Em outras áreas sucateadas pelo neoliberalismo, como na produção de Ciência e Tecnologia, Defesa Nacional, Política Industrial, ainda que com menos intensidade, já são visíveis as diferenças com governos anteriores.

30. Mesmo no âmbito do Judiciário, sobretudo nos tribunais superiores (como destaque para o TST) as escolhas influenciadas pelo governo Lula foram muito positivas. No caso do STF pode se dizer que os avanços foram tímidos. Porém, o conservadorismo do judiciário ainda é um dos grandes desafios a ser enfrentado e superado.

31. Vivemos num país tão desigual e com dívidas sociais históricas tão acentuadas, que qualquer política regular e consistente de distribuição de renda melhora substantivamente as condições de vida do povo. E isso tem sido feito com êxito, deixando desnorteados os adversários do PT, à direita e à “esquerda”.

32. A institucionalização de programas como o “Bolsa Família” (responsabilizando as três esferas da Federação, com sua execução) e a consolidação do Benefício de Prestação Continuada (BPC), apenas para ficar em dois exemplos, tem efeitos muito positivos na vida dos mais pobres. E impacta a ação das forças divergentes do PT.

33. Isso repercute nos partidos de direita no país, que vivem crises estruturais de identidade e de projetos. À “esquerda” a situação chega a ser lamentável: reclamam que as políticas de distribuição de renda esvaziaram as lutas sociais; que entidades como a CUT e a UNE se tornaram “chapas brancas” etc. Sem capilaridade social, isolada politica e eleitoralmente, essa ”esquerda” faz uma curva tão acentuada em seu rol de lamentações que acaba se encontrando com o discurso udenista da direita, capitaneado pela mídia comercial conservadora.

34. É verdade que concessões fundamentais são feitas a frações da burguesia, notadamente ao setor bancário, à indústria automobilística, a parcelas do latifúndio, dos oligopólios de comunicação, de mineração, de siderurgia etc.

35. Trata-se do caminho escolhido pelo governo Lula, em face da correlação de forças realmente posta na sociedade. E algo insuficientemente debatido no PT, a quem caberia, principalmente, debater e adotar medidas para que fosse mudada a correlação de forças desfavorável. Inclusive, influenciando nos rumos do governo. Assim, com Lula foi iniciado um movimento de reconstrução da economia do país, a partir de incentivos a algumas cadeias produtivas, a recuperação da capacidade de planejamento e indução do desenvolvimento a partir do estado, da produção de ciência e tecnologia autóctone etc. Isso, quando combinado com as medidas que produziram saldos positivos da balança comercial, baseadas principalmente na exportação de commodities e com medidas conservadoras no controle do câmbio e da inflação, num contexto internacional favorável, deu ao Brasil a condição de ter passado pelas turbulências das crises mundiais, com relativa tranquilidade.

36. Se a premissa da correlação de forças desfavorável é correta, o PT carece de um plano estratégico para alterar tal situação. A agenda partidária cada vez mais se identifica, na retaguarda do governo, com a agenda congressual. Nem mesmo há uma ação concertada entre PT, PCdoB, PSB e setores do PDT, articulada com movimentos sociais mais ativos na sociedade, para a ativação de campanhas em torno da reforma política, da agrária, urbana etc. E muito menos para as eleições municipais do país, por exemplo. Já que o governo é de ampla coalizão, o PT é pouco ativo no sentido de garantir, nos espaços extraparlamentares e extragovernamentais, um mínimo de identidade da base de sustentação do governo da presidenta Dilma.

37. Outra lacuna tática do conjunto do PT é a nossa incapacidade crônica de abordar esse amplo público beneficiado com o ciclo de desenvolvimento econômico e social vivenciado a partir do governo Lula. Quando muito, a partir do inchaço do próprio PT, o que se tem é a reprodução de práticas clientelísticas e fisiológicas, alienígenas ao ideário petista, ou tributárias daquilo que Gramsci chamou de hegemonia passiva. Ou seja, uma hegemonia baseada na relação despolitizante, em que conquistas sociais são apresentadas como benesses de um parlamentar ou agente de governo.

38. Tal situação enfraquece até mesmo a consolidação de políticas públicas importantes que avançaram com o governo Lula e que prosseguem no atual. E o que é mais grave, impede a geração de novos avanços. Sobretudo no que diz respeito à função social da propriedade, à reforma urbana e a agrária etc.

39. Com os partidos neoliberais enfraquecidos e com suas instituições privadas de hegemonia (imprensa, academia, consultorias e “formadores de opinião”) falando para o próprio umbigo, abre-se uma oportunidade histórica ao PT.

40. Estudiosos de vários matizes ideológicos concordam que nos momentos de crises profundas do capital, o Brasil deu saltos significativos em sua economia, na reforma do estado e no fortalecimento da sociedade civil. O final do século XIX vivenciou uma gigantesca depressão no mundo e o Brasil realizou importantes mudanças em sua formação social: reformas eleitorais, abolição conservadora da escravidão, a implantação (ainda que por meio de um golpe) da República, etc. E foram iniciativas tímidas frente ao potencial colocado pela crise internacional. Mais não se avançou, em face dos pactos conservadores das elites agrárias brasileiras e da condição pífia da burguesia urbana nascente. Ou seja, poderiam ter ido mais longe se os atores sociais tivessem tido um papel mais ousado.

41. A outra grande depressão, expressa no crack de 1929, marcou um tempo que caracterizou mais um salto na formação social brasileira: a dissolução do pacto agrário-exportador, o fortalecimento da burocracia estatal, o investimento em infraestrutura viária, industrial e urbana, a criação de universidades e escolas técnicas etc. Infelizmente tais mudanças também não nasceram de algum tipo clássico de revolução burguesa ou das iniciativas do incipiente proletariado urbano. A hegemonia conservadora é que coordenou esse processo de reformas, definindo seus limites e possibilidades.

42. Essas duas grandes crises (a do final do século XIX e a emblematizada pela queda Bolsa de Nova York, mas que se refere a todo o período entre as duas grandes guerras mundiais) perduraram por cerca de três décadas, até o capital se estabilizar e retomar seus complexos e instáveis ciclos de crescimento.

43. Já o Brasil contemporâneo vive boas possibilidades, em um dos momentos mais agudos da crise mundial que se inicia na década de1970 e se prolonga até nossos dias. São mais de 40 anos de “tentativas e erros” que apontam para os limites a uma saída duradoura da crise do capital. A queda do “padrão ouro”, as políticas de privatização, a diminuição de direitos sociais, a precarização do trabalho, a abertura de fronteiras comerciais de países pobres e em desenvolvimento, a intrusão do gerencialismo privado na máquina pública, bolhas de crescimento baseadas em pirâmides financeiras, enfim, estas e outras medidas marcaram as últimas décadas, daquilo que aqui chamamos de “tentativas e erros”.

44. Assim, entendemos como manifestações de uma crise de longo curso, a crise da “bolha hipotecária” (2008-09), a atual crise que derrubou sete governos na chamada zona do Euro, a crise da dívida americana, as quebras dos “tigres asiáticos”, do México, Argentina e etc.

45. Até mesmos a queda das burocracias ditas “socialistas” e a plena assunção do capitalismo em países como a Rússia, China e etc deve ser entendida nesse contexto de busca de saídas à crise do capital, sob o ponto de vista do capital (Mèzáros).

46. Eis, portanto, a oportunidade do Brasil. Diferentemente das grandes depressões de 1873 e a de 1929, a atual crise de longo curso do capital encontra nosso país em condições de dar um salto histórico, mas com “consciência-de-si”. Principalmente porque temos na presidência da República alguém identificada com as demandas políticas e históricas do mundo do trabalho. Temos o maior partido de esquerda do planeta, compartilhando e em condições de disputar os rumos das reformas estruturantes que podem colocar o Brasil como potencia mundial. Temos uma base social difusa, mas que se identifica – ainda que de forma genérica – com esse projeto. Enfim, temos as condições objetivas e subjetivas para dar esse salto de qualidade. Resta saber se construiremos as condições para que essas mudanças sejam conscientemente assumidas e sustentadas pela base social que o PT e a esquerda em geral querem representar.

47. Registre-se que PSDB, DEM e PPS não estão mortos. Ganham tempo, procuram reorganizar suas forças e se reconstituírem como alternativa de poder no Brasil. Suas recentes movimentações indicam que adotaram um discurso ainda mais ousado na linha da privatização de ativos, da abertura de fronteiras comerciais, de inserção nada soberana no cassino financeiro internacional, de desqualificação dos avanços alcançados no governo Lula etc. E ainda é bom atentar para o fato de que nossos aliados, na base do governo Dilma, buscam também seus espaços, “espremer” o PT, em termos de capilaridade e base social.

48. Isso demanda clareza nas tarefas que temos pela frente:

a. Buscar a politização do Partido e dos movimentos sociais mais avançados: no sentido da tomada de consciência acerca do momento histórico em que vivemos, superar a letargia imposta pela visão de que, estando no governo, só nos resta propor e aperfeiçoar “políticas públicas”. Ao contrário, a luta por políticas públicas mais avançadas tem de ser conduzida pela determinação de conquistarmos reformas estruturantes: agrária, urbana, tributária, política etc. Ou o partido entende que tem assumir a vanguarda dessa oportunidade histórica, aberta pela mencionada crise de longo curso do capital, ou permanecerá na retaguarda dos acontecimentos, num quadro em que tanto os adversários declarados, quanto “aliados” tentarão nos enfraquecer e isolar.

b. Defender uma concepção de Estado necessário para sustentar esse salto de qualidade na formação social brasileira: aquele dotado de fortes instrumentos de planejamento e decisão, de capacidade de investimento em infraestrutura, que implemente medidas de geração de empregos sustentáveis e qualificados, de avanços na proteção social e na materialização de direitos dos setores mais vulneráveis da sociedade etc. Este Estado, poroso e permeável à participação popular, deve aprofundar as iniciativas de controle social do orçamento público, do cronograma de políticas e programas, de obras e serviços, além do controle dos processos decisórios ao nível do Judiciário, do Legislativo e do próprio poder Executivo.

c. Difundir a proposta de que o mundo do trabalho seja muito mais que beneficiário passivo dos ciclos de crescimento da economia. Ter trabalhadores e trabalhadoras como sujeitos do processo de desenvolvimento do país e da refundação de nossa formação social é a condição para que as mudanças que pretendemos sejam sustentáveis. As conferências nacionais setoriais são ambientes favoráveis para a disputa de projetos que vão além da “setorialidade” das mesmas. Mas, numa conjuntura dinâmica, a luta pela afirmação do mundo do trabalho como sujeito histórico ativo, pressupõe também plena intervenção nas eleições para governos e parlamentos.

d. Logo, há que se compreender a conjuntura eleitoral vindoura como estratégica para o país. Os aparatos privados de hegemonia burguesa (jornais, institutos e consultorias burguesas e os tais formadores de opinião), mais a direita partidária capitaneada pelo PSDB, vão tentar nos enfraquecer ao máximo em 2012. Seus argumentos, já que não nos derrotaram em 2006 e 2010, mudam cinicamente para o reconhecimento de que o país avançou, mas que isso seria algo que se deve a eles e que seria preciso retomar a “transição paralisada” pelo PT. Embora politicamente esquizofrênico esse discurso encontra eco em setores da sociedade e até mesmo em lideranças petistas.

e. Minoritários, esses setores acalentam a expectativa de que podemos superar a relativa dependência de nosso governo ao populismo conservador do PMDB e às suas práticas fisiológicas, a partir de uma abstrata “politica de convergência” com os tucanos.

f. Trata-se de se rechaçar essa visão, disputando na base partidária e nas instâncias dirigentes a seguinte diretriz: a polarização, ainda que dissimulada, que subjaz às disputas de 2012 é aquela que opõe a tentativa de retomada da agenda neoliberal (reciclada) e a continuidade dos avanços democráticos e sociais iniciados por Lula e continuados por Dilma Rousseff.

49. Muito embora pautada pelo calendário eleitoral de 2012, essa disputa de significado na conjuntura política exige que o Partido inflexione seus esforços para uma repactuação com os movimentos sociais e sindicais mais combativos no país. Isso implica conhecer conflitos, diferenças de enfoques, tensões e distintas temporalidades na relação entre partido e movimentos, partido e governo, e, finalmente, governo e movimentos sociais e sindicais.

50. Daí a relevância de se ressaltar a importância estratégica dos movimentos sociais e sindicais para os avanços das reformas pretendidas. Sem a sinergia social ressaltada anteriormente, o governo federal ficará refém da agenda e da dinâmica do capital, no processo de implementação das reformas urgentes e na busca da ocupação de um espaço relevante na reestruturação geoestratégica mundial em curso.

51. Assim, a politização do Partido, para que o mesmo assuma –conscientemente – a grandeza do momento histórico de transição em que vivemos, superando a timidez da mera “disputa por políticas públicas”; a defesa de uma concepção democrática e popular de Estado, que seja transparente, poroso e controlado socialmente; a investidura do mundo do trabalho, como sujeito histórico das transformações em curso, para além da condição de beneficiário e reivindicante corporativo; são as três tarefas gerais na conjuntura. E que rebatem diretamente no processo eleitoral vindouro, possibilitando sua nacionalização e momento de afirmação do projeto democrático e popular.

52. Destas se desdobram tarefas táticas específicas, não menos importantes, a serem detalhadas em resolução própria.

53. A plataforma política da conjuntura deve ser concretizada naquelas reivindicações que exponham o nervo das contradições sociais, nesse momento histórico de transição: a função social da propriedade nas condições concretas da formação social brasileira; a democratização das comunicações; e o acesso universal aos serviços de educação e saúde; o alcance das políticas protetivas do Estado, aos setores vulnerabilizados; tudo isso está na base da plataforma democrática e popular que deve orientar a preparação para todos os embates que estão por vir.

A Esquerda Popular e Socialista se apresenta ao Partido e aos lutadores e lutadoras sociais resgatando algo que vem sendo esquecido ao longo da trajetória da esquerda: avanços políticos e institucionais sem “alma social” tendem a ser efêmeros. E essa “alma social” é um atributo que só pode prosperar com a ativa e consciente participação dos sujeitos mais dinâmicos do mundo do trabalho.



I Congresso Nacional da Esquerda Popular e Socialista – Tendência interna do PT
04 de Dezembro de 2011
Guararema – São Paulo (Escola Nacional de Formação Florestan Fernandes)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Resolução Política da Esquerda Popular Socialista


     A Esquerda Popular e Socialista – EPS - tendência petista fundada no dia 4 de dezembro de 2011, na Escola Nacional Florestan Fernandes em SP, nasce com a contribuição de militantes de 18 estados de todas as regiões do país afirmando a centralidade da luta dos/as trabalhadores/as e a relação orgânica com os movimentos sociais. Tem como princípios fundantes o feminismo, o combate ao racismo, à homofobia e a todas as formas de discriminação. A EPS surge com o objetivo de fortalecer o PT como instrumento capaz de formular e dirigir as principais frentes da luta política no Brasil, defendendo o governo Dilma, o aprofundamento das mudanças iniciadas no governo Lula, as reformas estruturais e tendo o socialismo como objetivo estratégico.

Resolução Política

     A direção nacional da Esquerda Popular e Socialista do PT, reunida em 25 de janeiro de 2012, em Porto Alegre, sede do Fórum Social Temático, debateu a situação política e econômica internacional e nacional e aprovou a seguinte resolução:

     1. Saudamos a realização desse Fórum Social em Porto Alegre, fruto do esforço dos movimentos sociais e partidos de esquerda, que mantêm acesa a chama do internacionalismo e da crítica anticapitalista.

     2. Apontar alternativas globais e fortalecer a luta contra o capitalismo neoliberal se faz cada dia mais necessário. O agravamento da crise econômica mundial, cujo epicentro nesse momento é a Europa, deixa nítido que vivemos em um momento que evidencia a incompatibilidade estrutural entre capitalismo e democracia, entre capitalismo e emprego, entre capitalismo e políticas sociais.

     3. Os mercados financeiros derrubam governos, desestabilizam economias. Os capitais internacionais seguem ditando regras, chantageando Estados, exigindo profundos cortes nas políticas públicas para direcionar recursos a banqueiros e especuladores. Suas receitas são políticas recessivas, que aprofundarão a crise, em um círculo vicioso sem fim. O desemprego, em todo o mundo, atinge níveis recordes, como mostram os números da OIT (200 milhões de desempregados, com tendência a agravamento). Cumpre ressaltar que os níveis de desemprego são, em média, três vezes maiores entre os jovens.

     4. Embora a situação seja diferente no Brasil, na América Latina, na China e Índia, entre outros países, que não adotam políticas neoliberais, já sentimos a desacelaração dos índices de crescimento econômico. Não há garantias que um derretimento da Europa e um aprofundamento da crise mundial não afetem de maneira significativa também esses países, inclusive a economia brasileira.

     5. É nesse contexto que as acertadas políticas dos governos Lula e Dilma devem ser aprofundadas. Estamos desafiados a continuar crescendo com aumento do emprego, distribuição de renda e expansão das políticas sociais. Cabe ao PT e aos movimentos sociais aprofundar o debate sobre medidas de fortalecimento das políticas públicas, de aumento dos salários, da garantia dos investimentos em infra-estrututura e de democratização do Estado brasileiro.

     6. Radicalizar o compromisso democrático e popular do governo federal liderado pelo PT pressupõe corrigir algumas rotas. A começar pela política de juros, do superávit primário e de gestão da dívida interna, que seguem sendo um dreno gigantesco de recursos. Em 2011 foram cerca de R$130 bilhões de superávit primário. Uma fortuna que poderia estar sendo direcionada para saúde, educação, combate à pobreza ou novas obras.

     7. Enfrentar a crise econômica significa fortalecer o mercado interno e distribuir renda de maneira efetiva. A reforma agrária deve voltar ao centro da agenda do PT e do governo federal. Democratizar a estrutura agrária e priorizar o apoio à agricultura familiar se faz combatendo a pobreza e a miséria, distribuindo renda e poder, gerando um círculo virtuoso de emprego e aumentando as condições de vida de milhões de pessoas. A reforma agrária, ao contrário do que pensam alguns, é absolutamente contemporânea e sua não-realização é uma das grandes lacunas na história do Brasil.

     8. O primeiro ano do governo Dilma é motivo de orgulho para todo o PT e de todos setores que apoiam o projeto democrático-popular. A alta aceitação da presidenta é resultado de sua firmeza, de sua liderança, reflexo da continuidade das políticas democráticas iniciadas nos governos de Lula e também dos novos programas lançados, com destaque para o Brasil sem Miséria, com a generosa e ambiciosa meta de erradicar a pobreza extrema no país até 2014.

     9. Agora, é preciso avançar. O PT e o governo Dilma devem retomar a agenda das reformas estruturais que estão paralisadas, como a reforma agrária (já mencionada), a reforma urbana, a reforma política, bem como o debate sobre a função social da propriedade, a democratização e regulação dos meios de comunicação, a redução da jornada de trabalho.

     10. O PT e o governo Dilma devem seguir discutindo os impactos que a aprovação do código Florestal poderá trazer para a biodiversidade e a capacidade produtiva do país e para a correlação de forças entre os grandes interesses do agronegócio e as demandas de pequenos agricultores familiares. Aqui, saudamos os deputados federais que votaram contra o Código Florestal e o senador Lindberg Farias, único senador que se opôs de maneira consistente e votou contra o Código.

     11. O PT e o governo Dilma devem atuar, ainda, de maneira enérgica no combate ao trabalho em condições análogas a escravidão. Segundo dados do Ministério do Trabalho, já foram localizados 294 infratores entre pessoas físicas e jurídicas, em geral, grupos de usineiros, madeireiros, fazendeiros e empresários do ramo imobiliário, de supermercados e shoppings. Nesta semana, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário denunciou a ocorrência de trabalho em regime de escravidão em Manaus, no Distrito Agropecuário da Suframa, na BR-174.

     12. Nesse segundo ano de governo, o desafio é avançar e melhorar a interlocução e o diálogo com o conjunto dos movimentos sociais, dar mais peso à agenda dos direitos humanos (a Comissão da Verdade é um marco), às políticas de enfrentamento à desigualdade entre mulheres e homens, às políticas de promoção da igualdade racial, às políticas de combate à homofobia, entre outras.

     13. É fundamental combinarmos as políticas econômicas, que ampliam a renda das famílias e combatem a pobreza, com iniciativas que ganhem esses setores para posições políticas mais avançadas, fazendo com que se comprometam como nosso projeto de transformação do Brasil. Afinal, muitas das propostas que apresentamos ao governo dependem da organização, da luta e da correlação de forças. Portanto, a agenda dos movimentos sociais, a elevação do nível de consciência das pessoas e a capacidade conquista de mudanças são tarefas da Esquerda Popular Socialista.

     14. Reafirmamos, ainda, a necessidade de fortalecer as políticas que enfrentam e combatam a discriminação e a violência contra as mulheres, que desvelem o racismo e a homofobia, e que garantam o protagonismo das novas gerações. É dessa pauta que podem ser extraídas vitórias mais contundentes do campo socialista, inclusive no governo Dilma, e indicará mais claramente as alianças para a disputa eleitoral.

     15. Essa agenda que retoma o fio histórico do programa democrático-popular dará nitidez ao PT nas disputas municipais. Será o momento de fazer a defesa do governo Dilma, apontando para os avanços, e fazer o contraponto à direita sem programa e sem discurso. As eleições municipais fortalecerão o PT se as disputarmos com uma visão nacional, com amplitude política, mas com radicalidade para demarcar campos e confrontarmos projetos.

     16. É por isso que a política de alianças do PT não pode se transformar em algo amorfo, que tire nossa identidade política. O sucesso do Partido e do governo Dilma, a liderança de Lula, o esfacelamento do DEM e a divisão do PSDB faz com que muitos setores conservadores mudem de tática e tentem nos dividir, nos neutralizar. Os afagos da grande mídia à Dilma e a criação do PSD de Kassab são os fenômenos mais visíveis do reposicionamento das forças conservadoras na disputa política em curso.

     17. Nesse sentido, uma aliança com Kassab na capital paulista, por exemplo, seria um verdadeiro tiro no pé, que desmobilizaria nossa militância, nossa base social e eleitoral. Nos tiraria discurso e nitidez, nos colocaria no jogo do adversário. Essa cautela com a política de alianças, sobretudo com o PSD, deve nos nortear em todas disputas, Brasil afora. Candidaturas próprias do PT em algumas disputas, como em Belo Horizonte, farão toda a diferença e adquirem sentido estratégico. O momento é de fortalecer o Partido dos Trabalhadores: eleger o maior número possível de prefeitos e prefeitas, vereadoras e vereadoras.

     18. Por último, reiteramos nosso compromisso com o fortalecimento do conjunto das lutas e movimento sociais. O PT deve resgatar seu vínculo orgânico com o conjunto das entidades e movimentos que lutam por terra, moradia, salário, igualdade. Nesse sentido, reafirmamos a importância de seguirmos em sintonia política com os/as companheiros/as do MST, Via Campesina e da Consulta Popular. Quanto mais fortes as lutas sociais, mais fortes serão nossos governos e nossas condições para mudar a realidade e implementar o programa democrático-popular, ampliando seu sentido e conteúdo anti-capitalista.

     19. A conjuntura exige que o PT aumente o tom da denúncia à criminalização dos movimentos sociais. Está em curso um processo de agudização da repressão e do uso das forças policias estatais contra os ativistas de diversos movimentos. O governo Alckmin é o maior protagonista de uma escalada conservadora e autoritária, que flerta com o fascismo em operações como a desocupação do “Pinheirinho”, em São José dos Campos, ou o ataque a moradores de rua/dependentes químicos na cracolândia. Em Goiás, o governo do Tucano Marconi Perillo realizou a operação desocupação do Parque Oeste Industrial em Goiânia nos mesmos moldes do Pinheirinho. São retrocessos inaceitáveis, incompatíveis com a democracia, e que representam a diferença entre os dois projetos: dos tucanos e do campo democrático e popular.

Viva o Fórum Social Temático!
Viva os movimentos sociais!
Viva o PT!

Porto Alegre, 25 de janeiro de 2012
Direção Nacional Esquerda Popular Socialista (tendência interna do PT

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

NOTA DO PT EM SOLIDARIDADE AOS OCUPANTES DO PINHEIRINHO

     Partido condena violência e atos lamentáveis praticados pela prefeitura de São José dos Campos, Governo de São Paulto e Tribunal de Justiça.

NOTA DO PT EM SOLIDARIDADE AOS OCUPANTES DO PINHEIRINHO

     O PT acompanhou chocado, como toda a Nação, o desfecho violento e inesperado das negociações sobre a posse e urbanização de uma área ocupada por mais de mil famílias, há mais de 8 anos, no bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos, SP.

     A mega-operação de reintegração de posse que envolveu a Polícia Militar do Estado de São Paulo e a Guarda Municipal de São José dos Campos frustrou os esforços para uma saída pacífica para o conflito social, com base em proposta de políticas públicas para a regularização, urbanização e construção de moradias populares na região envolvendo os três níveis de governo – federal, estadual e municipal.

    De propriedade de um mega-especulador de passado amplamente conhecido, o Sr. Nagi Nahas, abandonada e sem o pagamento regular de seus impostos, envolta em chicanas jurídicas de falência da empresa de seu proprietário, o terreno poderia ser objeto, conforme proposta formal do Governo Federal, de uma ação conjunta dos vários entes federados para dar-lhe destino social, integrar as famílias ocupantes à cidadania plena e equacionar um problema crônico de moradia popular em importante pólo regional do Vale do Paraíba paulista.

     No entanto, quando se imaginava que o caminho das negociações estava efetivamente aberto, a Prefeitura de São José dos Campos rompeu unilateralmente as negociações, e, de forma dissimulada e inesperada, sem comunicação prévia, passa a operar pela reintegração de posse junto à Justiça Estadual e o Governo do Estado. O que choca é que o mínimo de civilidade e credibilidade se espera na relação administrativa entre entes da Federação. A dissimulação e a mentira são posturas inaceitáveis em relações políticas e administrativas, e essas foram marcas do comportamento da Prefeitura de São José dos Campos neste processo.

     A Prefeitura de São José dos Campos, o Governo do Estado de São Paulo e o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo devem responder pelas conseqüências de seus atos nesta situação lamentável que expôs vidas humanas a risco desnecessário, tanto das famílias ocupantes quanto da população do entorno da ocupação e de outros bairros da cidade para onde a violência se estendeu.

     O PT manifesta sua solidariedade ao movimento popular de São José dos Campos, aos moradores atingidos pela violência do Estado nesta reintegração de posse e aos membros do Governo Federal e parlamentares presentes facilitando em todos os momentos a negociação por uma saída pacífica e construtiva para o conflito.

      O PT cumprimenta o Governo Federal pelos seus esforços de diálogo e por sua responsabilidade em todo o processo do Pinheirinho, e condena fortemente a intransigência e a insensibilidade social dos governos tucanos de São José dos Campos e do Estado de São Paulo, instando a todos pela retomada das negociações que permitam reparar o sofrimento causado desnecessariamente a famílias pobres e sem-teto.

São Paulo, 23 de Janeiro de 2012

Rui Falcão
Presidente Nacional do PT

Renato Simões
Secretário Nacional de Movimentos Populares e Políticas Setoriais do PT